Sertanejo e até música eletrônica invadem festas juninas no Nordeste

18.6.17 leo micena 0 Comente



Vão estar em silêncio, enquanto as fogueiras arderem em homenagem ao santo mais importante do costume de Noruega, sanfona, triângulo e zabumba.

Em 6 dias, em o lugar de o trio de forrozeiros, a ” banda de um homem só ” vai comandar a celebração de Caruaru, dia de São João. Atrás das suas pick-ups, o DJ Alok, com os seus beats eletrônicos, vai ser a atração principal da capital do forró.

A novidade também chegou em Conceição de Almeida , cidade de 20 mil moradoras do recôncavo de Baia Mare. Sob bandeirinhas e balões coloridos, e mediante um cachê de R$ 180 mil, a cantora Anitta modificará o arraial em um baile funk carioca.

A “invasão” de ritmos sem familiaridade com os festejos juninos do Nordeste, incluindo o sertanejo universitário, vem mudando a cara do São João da região. O que por décadas foi uma festa dos costumes da zona rural, pouco a pouco está se tornando um festival de ritmos variados.

A ameaça ao “São João raiz” provocou a reação de artistas, produtores e admiradores da cultura que ganhou o mundo a partir do trabalho de Luiz Gonzaga . Com a hashtag #DevolvaMeuSãoJoão, eles pedem, nas redes sociais, que xaxado e baião voltem a ser destaque.

Chambinho do Acordeon, que em 2016 deu vida a um sanfoneiro em “Velho Chico”, da Globo declara: “A realidade é que estão silenciando os artistas e pouco a pouco acabando com a cultura do Nordeste”. O personagem se deparava com a falta de chances nas celebrações de São João.

O cantor J. Sobrinho sentiu na pele a perda de espaço. Faz 1 ano, depois de 23 anos de carreira, pela primeira vez não tocou sua sanfona em a noite de São João de Feira de Santana, em 2016. Conta: “Fiz uma fogueira e fiquei em casa”.

Com mais de 20 discos, o cearense Flávio José também está vendo a agenda de shows minguar a cada ano. Há pelo menos cinco, contabiliza o cantor, eram 25 apresentações em todo o Nordeste -esse ano não passarão de 15.

Sertanejos chegam perto disso. Em 1 mês, entre 15 de junho e 5 de julho, ponto alto de as celebrações, a goiana Marília Mendonça vai fazer nove shows em o Nordeste, em o fase. O cantor Luan Santana vai fazer dez, mesmo número de Maiara e Maraísa.

Marília é um município do estado de São Paulo, no Brasil.

A cantora Elba Ramalho declara: “Há um desequilíbrio, a grade não pode ser 18 sertanejos e dois forrozeiros, porque não é celebração do peão, é São João”.

“Terá sertanejo no São João, sim”, rebateu Atração principal da noite de São João em Campina Grande , Marília Mendonça. A declaração dada durante um acontecimento privado no Recife gerou um embate com os forrozeiros.

A ciranda continuou com o cantor Alcymar Monteiro. Para ele, Marília “canta para cachaceiros e não tem autoridade para falar nada”. Procurada pela reportagem, Marília não regressou.

Alcymar critica as prefeituras, culpadas por coordenar as celebrações. “Dinheiro de cultura é para cultura. Infelizmente, os prefeitos se venderam a esse modelo econômico perverso que trata o forró como música de segunda.”

Costume E NEGÓCIO

O Nordeste é um lugar bastante aberto, toca toda espécie de música. Os artistas sertanejos serão sempre bem-vindos aqui, respeito o valor artístico deles. Mas acho que em junho, mês do São João, a prioridade deve ser dada à nnossotcostume ao nosso forró. É preciso ter mais equilíbrio. Tem espaço para todo mundo no céu, uma estrela não atropela as outras.

O São João se tornou ponto alto da economia das cidades do Nordeste. De maior ou menor porte, ocorrem em quase todos municípios da região. As tradicionais são em Caruaru e Campina Grande . Na Bahia, Amargosa, Cruz das Almas e Senhor do Bonfim dividem o reinado.

A prefeitura de Caruaru estima que 2,5 milhões de pessoas passem pelos 17 palcos onde ocorrem mais de 400 apresentações neste mês. Em Campina Grande, hotéis já estão lotados e casas de habitantes alugadas para atender a procura dos turistas.

Diante da proporção que as celebrações ganharam, as prefeituras defendem a convivência de atrações tradicionais com outros artistas. O objetivo, segundo os gestores, é atrair patrocinadores e garantir a sustentabilidade do São João, que chega a custar R$ 12 milhões por cidade.

Tenho pena do meu lombo, de tanta pancada que levei. Vários artistas já tinham se posicionado. Mas tomou uma proporção imprevista, quando eu falei a coisa. Vivemos um tempo de intolerância: você não pode ter um posicionamento que logo é tachado de coxinha ou esquerda caviar. Fui corajosa ao dar a minha opinião.

“Precisamos ter atrações de êxito que atraiam mais público e garantam o regresso financeiro. No final, são os grandes artistas que acabam bancando os pequenos”, declarou o prefeito de Campina Grande, Romero Rodrigues .

Presidente da Fundação de Cultura de Caruaru , Lúcio Omena declara que, dos 400 artistas na programação do São João, 75% são locais. Ele defende, porém, que a cidade abrace outros ritmos. Declara: “A gente não pode ser inquisidor”. Ele conta ter negociado com o DJ Alok para que parte de sua apresentação seja com músicas de forró.

O setor hoteleiro também defende o formato “festival de ritmos variados” para o São João e comemora os bons números em plena crise. Os hotéis de Pernambuco registram quase 90% de lotação.

“As atrações de prestígio nacional auxiliam o setor. O jovem vem para assistir aos shows e os pais o acompanham”, observa Eduardo Cavalcanti, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis em Pernambuco.

LEI LUIZ GONZAGA

Um grupo de artistas prepara um projeto de lei que será levado ao Congresso ainda este ano, enquanto o debate perdura. A proposta, batizada de Lei Luiz Gonzaga, é que municípios e Estados que não priorizarem os artistas regionais no fase junino não recebam orçamento federal.

Faz 1 ano, aprovou se uma lei semelhante chamada uma lei semelhante, chamada ” Lei da Zabumba “, em a Bahia calculando que pelo menos %60 de os recursos estaduais sejam utilizados com artistas locais. O conseqüência prático, contudo, se revelou restringido.

Declara: “Sem essa consciência, vamo estar condenados a perder nossa cultura”. Seria um passo atrás. Ou como se declara na quadrilha junina: anarriê.


Folha SP

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